O lado que ninguém fala

Os primeiros três meses foram francamente duros, jamais imaginei que fossem assim. É quase tão mau como estar a dormir profundamente e o despertador tocar. Tinha uma imagem cor de rosa de um recém-nascido, são tão pequeninos, tão delicados, tão fofinhos e tão, e tão e tão. Na realidade são tudo o que foi dito anteriormente, mas também são os únicos seres de 50 cm que podem virar a vida de dois adultos do avesso.Para quem não concorda, tape os olhos, os ouvidos porque hoje a conversa é sobre o outro lado, aquele que ninguém fala, mas que existe … Ahhhh se existe!
O cenário negro iniciou logo no hospital, ao segundo dia de vida, estava tudo tranquilo e de repente começa o choro assustador, estridente e incontrolável. Ninguém a parava. Os episódios de “terror” foram-se repetindo ao longo de várias horas, dias e meses. Na nossa cabeça pairava

NÃO, outra vez, NÃÃÃO!

Mas afinal onde é que me fui meter! Será que isto é para sempre?!

Quando é que esta miúda vai para a faculdade?! [risos]

Confesso que temi. Após o nascimento de um filho, principalmente para os pais de primeira viagem, a diferença entre o antes e depois é vertiginosa. Se antes o cenário é comer, passear, dormir, ver tv, viajar, namorar, jantar fora, estar no chat, facebook e skype. Após a criança nascer o cenário passa a ser comer, dormir e CHORAR!Desconhecia por completo estes factos, visto que até então, não tinha tido contacto próximo com crianças recém-nascidas. Mas a realidade é esta e não aparece aos poucos. Não. Aparece de rompante, sem estarmos, minimamente, preparados.

Resumindo os primeiros tempos são

25% a comer – são longos os períodos de alimentação, mudar a fralda, dar o leite e colocar a arrotar… xii já passou uma hora!!

25% a chorar – os “piquenos” não se sabem expressar de outra forma e a adaptação ao mundo não é fácil, sentem-se desprotegidos, desconfortáveis e inseguros.

50% a dormir – valha-nos isso!

Questionava-me muitas vezes

 “Mas será que ela não faz mais nada, senão comer, dormir e chorar?

Faz. Calma no coração porque tudo passa muito rápido e hoje ela ri, corre, fala, brinca. Se passava à frente os primeiros três meses, passava, mas não era a mesma coisa. Olhando para trás, sinto que foram úteis porque preparam-nos duramente para a tarefa mais difícil das nossas vidas, sermos pais.

Ângela Rodrigues

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