A mãe também falha 

Na nossa sociedade o papel de mãe e de pai não tem o mesmo peso, nem a mesma medida. Infelizmente. Desde que fui mãe estou mais atenta a determinados comportamentos da população em geral. Ninguém me disse, eu descobri sozinha.

A mãe não tem espaço para falhar e quando falha, surgem os dedos indicadores, os olhares constrangedores e o ruminar de opiniões.

Parece que a mãe tem mais obrigações que o pai, se a mãe erra é uma incompetente irresponsável, se o pai erra é um coitado rapaz que ainda se está a adaptar.

A mãe, aos olhos de todos, trás um manual interno, que ela própria desconhecia, mas que rapidamente tem de o explorar, manejar, conhecer porque o mundo não está preparado para que a mãe não saiba, não conheça, não perceba ou simplesmente que ainda não tenha adquirido as competências e capacidades necessárias para ser mãe.
Já o pai incorpora um pequeno chip que o ajuda a orientar-se no maravilhoso mundo da paternidade, sem pressão, nem opiniões desagradáveis.

É uma pena, falarmos tanto de igualdade de género e esta restringir-se, apenas, ao papel e a pouco mais.

A mãe não sabe tudo, a mãe falha, acreditem. Por mais que se tente achar que não.

Gostava que soubessem que a mãe não tem uma bola de cristal, seria bom, mas ainda não é possível. A mãe não prevê que a criança vá ficar doente porque fizemos uma atividade à beira mar e no dia seguinte, ela está com 39° de febre. É óbvio que os “dedos indicadores” se dirigem à mãe – “com este frio foram passear à beira do mar, irresponsável!”. Esta última expressão não é dita, mas subentende-se.

A mãe não prevê que um fim-de-semana com um casal amigo lhe ofereça uma gastroenterite. Mas a culpa é da mãe porque permitiu que as crianças tivessem muito tempo em contacto – “devia tê-la apanhado ela, não a inocente da criança”. Estas palavras, também não são ditas, mas são pensadas.
A mãe é sempre a culpada, o bebé não dorme, a culpa é da mãe que não sabe estabelecer uma rotina de sono; o bebé não engorda, a culpa é da mãe porque lhe dá a mama e ele já precisava de um valente biberão de leite; o bebé chora, a culpa é da mãe que o habitua ao colo. A mãe, tantas vezes a mãe.

A MÃE também tem um coração do tamanho do mundo, tem braços maiores que o corpo, tem mãos que agarram e acariciam, têm sorrisos que escondem lágrimas, tem alegria, cuidado, paciência… a mãe, tal como todas as outras pessoas é feita de gente, gente essa que também falha.

Como todos nós…

Ângela Rodrigues

 

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